História do Rio Tietê

MEMÓRIA ESPECIAL – VIDA, MORTE, VIDA DO TIETÊ – A história de um rio de São Paulo

Pense em São Paulo mais de quatrocentos anos atrás. Sim, isso mesmo: imagine a cidade logo depois de sua fundação, em 1554. Pouca coisa, não é? Apenas uma “casinha de torrão e palha” com “quatorze passos de comprimento e doze de largura” o colégio de Piratininga, fundado pelo padre jesuíta José de Anchieta, “para servir de escola, enfermaria, dormitório, refeitório, cozinha e despensa”.

O local era estratégico. No dorso da colina, onde fica hoje a região da praça da Sé, protegia-se à oeste dos mistérios da floresta sombria e à leste contra ataques indígenas e de corsários, com as encostas da cordilheira marítima servindo de barricada. Dali, divisava-se o maior dos cursos d’água, o sinuoso Anhambi (Tietê), que corria de costas para o mar. Região farta, ali se pescava em abundância, tanto nas águas do Piratininga (mais tarde Tamanduatei), como no leito caudaloso do Tietê.

Na verdade, o primeiro núcleo fundado próximo às suas margens foi São Paulo. Depois, surgem outros aldeamentos indígenas, organizados pelos jesuítas, como Guarulhos, Itaquaquecetuba, São Miguel, Mogi das Cruzes, Freguesia do Ó, Santana de Parnaíba, Porto Feliz. Na época, os índios usavam o rio como meio de transpor-te (em canoas feitas de casca de grandes árvores), como meio de subsistência (pesca) e, naturalmente, para divertimento. Nada mais justo, portanto, que eles o denominassem de rio verdadeiro. Ou seja, (T) i = água e etê = verdadeiro.

O Tietê é também um rio diferente.

Aonde começa e onde termina o Rio Tietê?

Nasce na serra do Mar, no município de Salesópolis, pertinho (22 km’) das praias do Atlântico. Ao contrário de outros cursos d’água, ele se volta para o interior de São Paulo, num percurso de 1.150 km da nascente até chegar ao rio Paraná, na divisa com Mato Grosso do Sul. Por isso, foi intensa a sua utilização como meio de transporte, principalmente com as monções – expedições migratórias após a descoberta de ouro em Mato Grosso e a fundação de Cuiabá, em 1718.

Foi em suas margens que surgiu também, alguns anos depois, o desenvolvimento de uma cultura até então modesta: a do café. Sua mais remota referência é de 1788: ao lado do Tietê frutificara o primeiro cafezal. Então, o futuro marechal José Arouche colhia café em sua chácara da Casa Verde, suficiente para o consumo da família.

São Paulo crescia lentamente.

Em 1860, era ainda um emaranhado de ruas de terra batida, tortuosas, cheias de pequenas casas de pau-a-pique. População: pouco mais de 20 mil habitantes. O movimento comercial era peque-no e nada de indústria. Os mais ricos moravam nas ruas do Rosário, Direita e São Bento, que formavam a área do triângulo paulistano. “Casas que parecem feitas depois do mundo, tanto são pretas; ruas que parecem feitas antes do mundo, tão desertas”, constatou o poeta baiano Castro Alves, então estudante na Academia de Direito do largo de São Francisco.Tudo era próximo.

Para alcançar “locais distantes”, como o Brás, Penha (a leste) ou Santo Amaro (ao sul), alugava-se um carro de bois. “Eram tão poucas as carruagens que os cidadãos acorriam às janelas para identificar o possuidor de alguma que passasse”, anotou Antonio de Paula Ramos Jr., também estudante de Direito.

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Rua Direita, 1862

Mas cinco anos depois, em 1865, surgia o primeiro sistema regular de transportes. No começo de agosto, o italiano Donato Severino publicou nos jornais o seguinte anúncio: “Progresso – O abaixo-assinado participa ao público que no dia 21 deste mês em diante tem carros e tilburis para aluguei, estacionados no largo da Sé, onde podem ser procurados para qualquer serviço”. O avanço do café pelo oeste paulista traz riquezas para a então província de São Paulo e, em 1866, o seu presidente João Alfredo Correia de Oliveira defende a drenagem das várzeas do Tietê e Tamanduateí.

Um ano depois, em 1867, inaugurava-se a Estrada de Ferro Santos-Jundiaí. “Percebo muitos melhoramentos”, assinalou Hadfield, viajante inglês que visitara São Paulo em 1868. “A própria cidade, bem como as ruas, estão notavelmente limpas. As estradas, nas imediações que eram anteriormente brejos, foram aterradas e estão agora em muito boa ordem”. Em 1889, proclama-se a República e a última década do século passado foi fundamental para São Paulo começar a perder seu caráter rural e ganhar contornos citadinos.

À época, as transformações da economia paulista foram profundas: abolida a escravidão em 1888, as alternativas para os negócios tinham sido ampliadas, em detrimento dos investimentos feitos em mão-de-obra escrava ou mesmo nas ações das companhias de estradas de ferro. Surgem assim novos investimentos, industriais e imobiliários. Mas o perigo ronda a cidade: uma epidemia de febre amarela. O clamor público pelo saneamento de São Paulo será impulsionador de inúmeras obras no Tietê.

Em 1899, quando a The São Paulo Tramway, Light & Power Co. Ltd. se estabeleceu em São Paulo, seus dirigentes canadenses sabiam de sua importância como pólo desenvolvimentista. Em História da Light – Primeiros 50 anos (Eletropaulo, 1989), Edgard de Souza (primeiro brasileiro a chegar à alta direção da Light) anotou a seguinte observação de Auguste de Saint Hilaire, membro da Academia de Ciências do Instituto de França, que viajou por São Paulo em 1819. “O Brasil deve permanecer ainda como país simplesmente agrícola e não chegou a época em que lhe pode ser vantajoso estabelecer manufaturas; entretanto, quando for o momento para isso, é em São Paulo que tais empreendimentos devem ser iniciados”. No ano de fundação da Light, São Paulo iá contava com cerca de 238.500 habitantes e a empresa ganhava a concessão do transporte urbano e energia elétrica.

Primeiras providências:

Em 7 de maio de 1900 aí trafegavam os primeiros bondes elétricos e, em 23 de setembro de 1901, é inaugurada a usina hidrelétrica de Parnaíba no rio Tietê, a primeira da Light no país – um passo decisivo para estender suas linhas de bondes e fornecer energia. São Paulo, neste ano, possui 108 indústrias: 70 estrangeiras e 38 brasileiras. Nas primeiras décadas do século, São Paulo cresceu muito.

Em 1920, no censo industrial, já aparece como o primeiro centro fabril do país. No realizado em 1905, ainda figurava o Rio de Janeiro como detentor do maior parque industrial. A cidade já havia transposto a várzea do Carmo e alcançava a várzea do Tietê, ao norte. Nos bairros do Brás, Pari, Barra Funda, Água Branca e Lapa estabeleceram-se algumas indústrias. Grupos da população operária já viviam, no seu dia-a-dia, o ritmo do rio em época das chuvas: as grandes enchentes, como em 1906 e 1929.

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Partida da expedição que explorou o rio Tietê (Anhembi) em 1905.

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Jardim da Luz, 1913

Em fase de calmaria, no entanto, suas margens viravam festa: partidas de futebol, românticas serenatas, piqueniques. Suas águas eram palco de esportes náuticos e pescarias. “Em 1923, conquistei medalha de remo na modalidade canoa 4X1000 m, disputada no rio Tietê”, conta Carlos Simon Poyares, 86 anos, ex-funcionário da Light. “As competições esportivas me fascinavam quando rapaz. Era sócio do Clube de Regatas Tietê e estava sempre metido em provas de remo e natação. Bons tempos”.

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Centro Antigo de São Paulo

Uma historinha moderna:

Em 1983, o mecânico londrino Russell Doig jogou o anzol nas águas do Tâmisa, o mais importante rio da Inglaterra, e logo tirou um salmão de quase três quilos. Era uma competição de pesca e, por isso, recebeu uma quantia em dinheiro e uma taça. Motivo da premiação: o salmão, um dos peixes mais exigentes em matéria de água limpa, tinha sumido do Tâmisa há exatamente um século, e o seu retorno era a prova de que a poluição estava banida do rio que cruza Londres. Na realidade, a despoluição do Tâmisa era uma marca profunda na consciência dos ingleses desde 1861, quando o marido da rainha Vitória – o príncipe Alberto – morreu de febre tifóide devido à insalubridade do rio. A partir de 1960, no entanto, o Tâmisa começou a ser despoluído através de uma estruturada terapia de revitalização de suas águas.

Desde 1950, São Paulo também fazia planos para salvar o Tietê. Todos, infelizmente, fracassaram. Segundo especialistas, o “principal problema era conciliar os interesses da Light – para quem o rio serviu antes de mais nada à geração de energia elétrica – com medidas despoluidoras que constavam dos planos Greeley-Hansey, de 1953, e Hansey-Sawyer e Hibrace, de meados dos anos 60”.

Por mais de meio século, portanto, o rio Tietê espera por socorro. Governos entraram e saíram sem que se desse solução real para esse importante curso d’água que corta São Paulo quase por inteiro. “Mas os brasileiros de São Paulo podem ter esperanças”, afirmou o governador Luiz Antônio Fleury Filho em 31 de janeiro de 1992, ao anunciar o Programa de Despoluição do Rio Tietê. A meta é chegar a 1994 com 50% do rio despoluído. “Não estou pensando em política ou em meu governo ao começar a tirar do papel a despoluição do Tietê e iniciar essa obra que meus sucessores inaugurarão”, disse o governa-dor (Jornal da Tarde, 1/2/1992). “Tenho consciência de que em 94 a diminuição de 50% da sua poluição talvez não devolva transparência e limpidez às suas águas, nem me permita nadar em sua correnteza, mas o próximo governador poderá, se der continuidade às obras. Quem sabe ele até me convide”.

O desafio está aí.

O investimento total previsto até o final de 1994 é de US$ 2,6 bilhões. A ampliação do sistema de coleta, afastamento e tratamento de esgotos domésticos exigirá US$ 2,1 bilhões, provenientes do BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento (55%) e do governo do Estado (45%). Na primeira etapa do programa (1992/93) serão investidos US$ 900 milhões e na segunda fase, US$ 1,2 bilhão. Já para garantir o pré-tratamento dos efluentes industriais serão aplicados US$ 500 milhões, sendo 50% de responsabilidade da iniciativa privada e os outros 50% correspondentes à linha de financiamento Banespa/BNDES.

A coordenação do programa está a cargo do grupo executivo formado por representantes da Secretaria de Energia e Saneamento, Sabesp, Cetesb e DAEE, numa ação integrada para solução dos problemas de abastecimento e tratamento de água e esgotos.

Pense, agora, num Tietê do futuro. Se todos – governo e comunidade – quiserem é possível salvar o rio de São Paulo. Em depoimento ao Departamento de Patrimônio Histórico da Eletropaulo, vários artistas apontam para esta necessidade: “Nós podemos e devemos limpar o Tietê” (Paulo Vanzolini, compositor e zoól

ogo), “Limpar o rastro do mal progresso que ele ganha ao atravessar São Paulo é imperativo” (Domício Pinheiro, fotógrafo), “O rio tem o direito a sua volta ao seio da natureza com águas límpidas e acolhedoras para todos nós – seus companheiros na caminhada da vida” (Lélia Abramo, atriz), “Quando será o dia que a cidade de São Paulo irá acordar e se orgulhar de seus rios?” (Manabu Mabe, artista plástico).

Vamos juntos salvar o Tietê?

Quem sabe todos possam usufruir de suas águas no esporte e lazer – veja bonitas imagens abaixo – como o fizeram os brasileiros de São Paulo num passado recente.


Competição de remo, s/d: curso limpo.


Ancoradouro e “piscinas”do Clube Tietê, 1930: diversão

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Natação e remo, anos 30: água limpas


Regatas no Tietê, s/d: dia de festa


Lazer na beira do rio, 1925: “Bons tempos”

Fonte: Depto. de Patrimônio Histórico, publicado em Abril/92